Saturday, 19 June 2010

Bruckner, Sinfonia nº7

O último concerto a que fui, já há bastante (demasiado) tempo, na Catedral de Berlim. A acústica não é a melhor, os sons misturavam-se bastante. Mas soube mesmo bem, este concerto.
Ouvir Schubert faz-nos uma pessoa melhor.
Esta Sinfonia, faz-nos querer ser uma pessoa melhor.

António Variações

Ando fascinado com este fenómeno meteórico da música portuguesa dos anos 80.
Muito interessante o documentário sobre ele, que se pode encontrar no youtube, que também permite percorrer uma época. Com dois albuns, Variações traçou de facto um rumo para os sons que se seguiram em Portugal.
Esta letra vale a pena ser escutada com atenção.

Sunday, 7 March 2010

Regresos

De regresso a Lisboa. Dois dias a passear por Lisboa, Mafra e Ericeira. É sempre interessante passear como turista no nosso país, na nossa cidade.
Ao terceiro dia, descansei. Agora que vou dormir, penso que hoje passei a tarde a saborear elementos que já não fazem parte do meu viver quotidiano: deitado no "sofá", a ver "televisão", e à noite jantar e ver o jogo do benfica com a minha "família".
À tarde, estava a dar o "´Sound of Music" na RTP memória, e deixei-me ficar a ver. Pela minha mente, constantemente, passava a ideia de que estava a ver algo que não faz já parte deste mundo em que vivemos. Para a minha sobrinha acabada de nascer, aquele filme não passará de um alienigena achado arqueológico.
Como não tenho mais bateria e é dificil explicar porquê, fico-me, por agora, por aqui.

Sunday, 28 February 2010

Manhãs de Domingo

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

Saturday, 20 February 2010

Ele brilha!

As temperaturas máximas para toda a semana são positivas, e as mínimas tornam-se positivas a partir de terça! Hoje, o Sol brilha no céu e vêm-se muitos espaços azuis entre as nuvens, coisa há muito esquecida!
E a visita ensolarada do grande Bernardo Vasconcelos que faz tão bem.

Wednesday, 10 February 2010

Obrigado, Pacheco Pereira!

Muito, muito importante ouvir isto, em especial a partir do quarto minuto. Aquilo que é óbvio ser dito, mas que faltava ser dito, muito bem articulado e estruturado, tudo aquilo que tem passado pela minha cabeça nestes dias.

Sunday, 17 January 2010

Entre mundos...

Hoje, à saída da biblioteca, fui comer qualquer coisa com um amigo libanês e outro americano (eles não se conheciam); sentados à mesma mesa, num diálogo não extraordinariamente fluido, mas normal.
O Obama ganhou o prémio Nobel da Paz por muito menos... (e muito jeito me dava o dinheiro agora...).

Coimbra e Zeca Afonso

Esta noite não paro de escrever, mas tenho ideias acumuladas na cabeça destes últimos tempos, ou então simplesmente apetece-me, ou então estou farto de econometria.
Já não vou a Coimbra para aí desde que tenho 12 anos ou coisa assim. Vergonha, e agora ainda mais, com tantos ex-alunos de Coimbra de quem gosto tanto.
Coimbra deve ser, sem dúvida, uma cidade muito especial. Recordar-me-ei sempre de uma noite, na festa do Avante, onde fui com um bom amigo que o rio do tempo deixou para trás numa qualquer margem. Telefona-me: queres ir ao Avante hoje à noite? Ok, embora, mas como entramos, e onde dormimos? não interessa, logo se vê, ok vamos embora" e lá fomos.
A primeira noite foi divinal, e dormimos junto ao lago, lá em baixo, debaixo de um saco de cama de alguém. Só se podia comprar à noite bilhete para o fim de semana todo, portanto ficámos também Sábado. Mas perdemo-nos na confusão, e nenhum dos dois tinha telemóvel na altura. Fiquei sozinho na festa, e não mais o vi.
Nessa noite, quando todas as barraquinhas já tinham fechado, o que acontecia relativamente cedo, chego-me à barraca de Coimbra onde ainda se cantava noite fora, numa atmosfera verdadeiramente excepcional. Ali me sentei num canto, a ouvir baladas de Coimbra umas atrás das outras, numa atmosfera de verdadeira magia.
Zeca Afonso canta essa magia. A voz dele, com esta imensa densidade que tem a História e o sofrimento e a tortura e a luta e a nostalgia lá dentro. A letra, que desperta esta faceta de ser português a um emigrante como eu. Esta música, que não posso partilhar como ninguém aqui, e que portanto nesta noite solitária é só minha:

Aprendendo...

Acredito seriamente que componente importante de uma amizade duradoura é uma certa dimensão de admiração. O reconhecer no outro a luz de farol que indica uma costa da qual nos queremos aproximar mais um pouco. Seja algo que temos e queremos preservar, seja algo que não temos e queremos almejar. Menos frequente, também se dá o terceiro caso de algo que não temos nem almejamos particularmente, mas que estimamos e admiramos no outro. Há claro, as outras amizades também, as amizades "históricas", aquelas pessoas que nos conhecem muito bem, com quem se "está mesmo bem", e que são mesmo boas de preservar. Mas os vários afastamentos (tempo, distância, trabalho, etc) tendem a carcomir estas bem mais depressa que as primeiras.
Os amigos do primeiro tipo chamam-se irmãos, o de sangue e aqueles que, não o sendo, sabem ao ler isto que o são. São pessoas que nos dão vontade de saber mais, sentir mais, de enriquecer interiormente. Que chamam a atenção para a Beleza à nossa volta.
Tenho consumido o meu I-touch incessantemente também para música mas principalmente para imensos podcasts. Além dos da Economist e tal, estou fascinado por esta coisa que é a i-Uni! Aulas gravadas, as que tenho ouvido da universidade de Berkeley, e reproduzidas como podcasts. Comecei a fazer três cursos: o de Existencialismo, o de Macroeconomia (para arrumar ideias já esquecidas) e o de História, começando no sex. XVIII (para arrumar ideias nunca tidas).
Os três professores têm em comum o serem verdadeiras personagens (aqui, de persona, a coisa da máscara e tal), cada um à sua maneira, que inundam um podcast de vida. Estas aulas são, de facto, uma das maravilhas da Web 2.0, que me fazem mesmo não compreender como é que há gente que diz que "não tem nada para fazer".

Terra Sonâmbola, Mia Couto

Não marca como a Imortalidade, o livro que li antes. Mas não deixa de ser saborosa a linguagem doce e recriada de Mia Couto, as palavras inventadas mas túrgidas de significado e de poder de evocação. E de ser tocante a tristeza de um país marcado pela guerra, no caso Moçambique, onde todas as esperanças ou sequer a esperança em um dia voltar a ter esperança, feneceram. Dois excertos, do princípio e do fim:

"O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saiam não do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da sobrevivência. Quando iniciaram a viagem já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações. No convivio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. Os dois companheiros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados."

"A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo."

Agora, dois dias para digerir, e segue-se o Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf.

Saturday, 16 January 2010

Does size matter?

Tenho andado um pouco embasbacado com a dimensão, a dimensão da obra de arte.
Para um tipo como eu, com uma janela de atenção de cerca de três minutos antes de o cérebro virar para outras paragens (olha, que giro, porque é que aquele coelho está a olhar para mim?), tenho mesmo dificuldade em perceber como se estruturam, como se criam com a dimensão de unidade, de coerência interna, obras tão extensas como a oitava sinfonia de Bruckner, ou como a segunda de Rachmaninoff que ouvi outro dia na Philarmonie, ou romances como os de que falou Pamuk outro dia como o Crime e Castigo ou o Anna Karenina, ou mesmo outros pequenos, como o que acabei de ler ontem, Terra Sonâmbola, de Mia Couto.
Como consegue um autor dirigir um pensamento, por exemplo o musical, em frases tão amplas, ondas de tensão e distensão que acompanho mas que nem sempre sei onde me levam.
Quando ouvimos Mozart, basta segui-lo. Sentimo-nos como uma criança de sete anos de mão dada com o Pai a atravessar a estrada, perfeitamente confiantes e seguros de estarmos no caminho certo. Seguimos o pensamento musical. Não quero com isto dizer: sabemos exactamente o que esta música nos quer dizer, como "esta música simboliza uma imagem primaveril, com passarinhos a cantar, folhas amarelas abanando levemente nas árvores e o cheiro a relva molhada emanando da terra". Mas há uma intuição, o nosso espírito "percebe".
Mas nestas obras de dimensão infinita, sinto-me perdido. Nem sempre a minha intuição consegue encontrar o seu espaço quando a oiço, e ainda menos o meu intelecto sentir-se guiado ou interpelado para algo vagamente concreto. Sim em pequenos segmentos, mas algures de seguida, passado um, dois, dez minutos, perde o todo.
Mas mais que a dificuldade na apreensão, é o problema da concepção que me intriga. É mesmo a tentativa de perceber como foi aquele pensamento estruturado na cabeça do autor. Perceber como, por exemplo, na Imortalidade de Kundera aquelas 10 páginas não estão lá aleatoriamente, mas fazem parte de uma matriz global da qual, se não apreendo o sentido, não apreendo a obra. E na oitava de Brucker, há muitas "dez páginas" em que não apreendo o sentido. E portanto, ainda não apreendi a obra.
Claro, é sabido que a oitava vai requerer de mim bem mais do que uma simples audição, que aquele monstro necessita de ser ouvido e digerido e, é verdade que nem tudo o que é bom tem de ser fácil e imediato.
Mas não deixa de intrigar a um tipo que escreve umas linhas e sente que escreveu uma coisa sem estrutura, meio devaneante, em que nem conseguiu dizer bem o que queria dizer, que alguém consiga explorar uma ideia ao longo de páginas e páginas de música ou prosa e com isso formar uma ideia coerente, uma unidade.

Bruckner


O fim do ano que passou foi também caracterizado pela escassa audição de música, nomeadamente ao nível da descoberta de novas coisas. Na verdade, se pensar bem, o ano que passou foi todo ele mais ou menos assim caracterizado.
Eis algo a mudar em 2010, e em Janeiro o mês é para ser consagrado a Bruckner, coisa que vinha já do final de 2009. Infelizmente tenho muito pouca música de Bruckner aqui no meu computador. Mas comecei a descoberta pela sinfonia nº2, cujo princípio aqui vos deixo, talvez numa versão mais rápida do que eu gostaria, mais rápida do que a versão em que a tenho ouvido dirigida por Eugen Jochum. É uma sinfonia de dimensão bastante razoável, a contrastar com outras de Bruckner, como a oitva, absolutamente monstruosas. É também uma sinfonia bastante "lírica", nomeadamente o seu segundo andamento,enfim num certo sentido diria bastante clássica. O terceiro andamento, sim, impõe já um certo freio nos dentes, para terminar novamente com alguma harmonia.
A descoberta da quarta a dita Romântica (não no sentido de dar flores à namorada, mas no seu verdadeiro sentido) ainda vai a meio caminho, mas é claramente já material diferente. A oitava, meus caros é muito, muito difícil e muito, muito longa, e vai requerer bem mais tempo até afundar!

Anteontem veio à minha faculdade, a Humboldt, o prémio Nobel da Literatura de 2006: Orhan Pamuk. A palestra que deu era subordinada ao tema (transcrevendo no original): "What happens to us when we read a novel?". Não foi a melhor coisa que já ouvi, mas foi interessante, e ele revelou-se um tipo com algum humor.
De assinalar o facto de a sala estar tão cheia que pessoas que, como eu, chegaram dez minutos antes de a coisa se iniciar tiveram de ir para outro anfiteatro onde a palestra foi projectada em vídeo. Este último anfiteatro, note-se, estava também ele completamente cheio!

Tuesday, 12 January 2010

Ontem foi dia de regresso à Philarmonie, a Gulbenkian cá do sítio.
Na verdade, não temos muito de que nos queixar em Lisboa. A Gulbenkian acolhe quase todos os grandes que por aqui passam. Ontem foi a Helène Grimaud. A diferença fundamental, é que enquanto em Lisboa tocam com a Orquestra Gulbenkian, aqui tocam com a Filarmónica de Berlim!
Na primeira parte, o concerto de Ravel em Sol Maior. Aqui, o andamento pelo qual o concerto é conhecido, o segundo:



Não fiquei extraordinariamente impressionado com o pianista Grimaud, mas o mesmo não posso dizer da mulher Grimaud! A entrada dela em palco, toda a sua postura, é de uma elegância, de uma delicadeza, ela é tão tão bonita, ao piano! Parece que em fotografia não fica lá tudo, mas é mais ou menos assim:



Segunda parte: segunda sinfonia de Rachmaninoff.. Difícil, enormes frases, ondas sonoras que se elevam e se apagam, numa constante dialética, nem sempre fácil de seguir.. Mas um bom maestro, um belo som, e uma sala rendida, o que não é nada comum! Geralmente, nestes concertos, os aplausos ficam-se muito mais pela primeira parte (para o solista), e na segunda parte, um breve reconhecimento sonoro à orquestra. Ontem, as palmas para a orquestra e o maestro não paravam de vibrar, uma atmosfera extraordinária!
No fim, conheci duas alemãs e uma belga, muito simpáticas! A Paula, a Laura e a Ruth! Vamos a um museu na quinta! Sim, e viva Berlim!

Thursday, 24 December 2009

Noites de Cinema

Começaram por iniciativa do Andre (alemão) e da Mana (iraniana).
O primeiro filme que vimos, sugerido pela mana, foi o "Persepolis" (2007), de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, vencedor do prémio do Júri no festival de Cannes de 2007. Um filme que percorre o passado recente do Irão acompanhando a história de uma jovem iraniana, ao que parece num registo bastante auto-biográfico da realizadora, passando pela Revolução Islâmica e as profundas alterações sociais subsequentes. Um excelente filme, que recomendo vivamente.
"Let's look at the trailer":

Wednesday, 16 December 2009

Madrugadas...

Regresso a casa, depois de um excelente pub-crawl com a Franzie, a minha melhor amiga aqui, a celebrar o seu último exame na faculdade e a conclusão do seu Magister.
Apanho o Tram M10 às 4h04, como sempre pontual ao minuto, e troco para o M5, que estava lá mesmo à minha espera. Mais uma vez, maravilhado com a eficiência dos transportes em Berlim, que me possibilitam mesmo a estas horas chegar a casa rapidamente.
Caminho pela minha rua, Werneuchenerstr. Como companhia, esparsos flocos de neve, algumas luzes de Natal a brilhar nas janelas, e um frio de rachar, a lembrar-me como foi estúpido esquecer-me de vestir a segunda camisola antes de sair de casa, disposta sobre a cama, e como se pode ser tão distraído. Tudo junto, compondo uma idílica ambiência de uma terna beleza e suavidade. Compro um maravilhoso bolo numa pastelaria ainda fechada, mas que me acolhe com a rápida cumplicidade forjada pelo adiantar da hora e pelo frio. Recheio de doce de morango. Mingua rapidamente, a cada passo, mártir de uma causa maior.
O calor do quarto é acolhedor, e embala rapidamente o meu sono. Para completar o cenário, só faltava mesmo acordar no dia seguinte com o imaculado lençol branco de neve a cobrir o campo de futebol diante de minha casa.
Aconteceu.

Saturday, 5 December 2009

Ventos da Suiça

Foi o medo da Suíça tradicional que venceu a consulta dos minaretes, noticia o Público. E é o medo que tem, também, dominado as reacções à decisão saída do recente referendo na Suiça relativo à proibição da construção de Minaretes nas mesquitas.
Reacções que vão desde a mais primária idiotice, como a do ministro das finanças francês Bernand Kouchner ao interrogar-se se “Será que é uma ofensa num país de montanhas que haja uma construção um pouco mais elevada?” à mais preocupante, da Ministra dos Negócios Estrangeiros suiça, Micheline Calmy-Rey, ao afirmar que o voto “pôs a nossa segurança em risco”. É assim, parece que cada discussão relativa ao Islão, no espaço europeu, decorre hoje com uma espada apontada ao pescoço, de um medo de uma reacção similar à verificada aquando do caso das caricaturas de Maomé, na Dinamarca, ou pior. E são os próprios dirigentes europeus, com estes discursos de tiro no pé, a propiciar o espaço e a legitimidade para a reacção violenta. Casos como o do co-presidente da bancada dos Verdes no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, ao apelar a que “os mais ricos dos países muçulmanos retirarem o seu dinheiro dos bancos suíços”.
Sejamos sérios: dificilmente se pode afirmar que um país do tamanho do Alentejo onde existem 180 mesquitas é um espaço onde a liberdade de culto não está salvaguardada. Um dos argumentos mais avançados é que só 4 dessas 180 mesquitas têm minaretes, e portanto estamos a falar de um não-problema dada a sua pequena dimensão. Mas se calhar há uma razão para essas 176 mesquitas não terem minaretes: elas não pertencem à configuração do espaço público europeu, e quem as construiu parece ter respeitado isso.
A cultura é vulgarmente definida como um sedimento de enunciados acumulados ao longo do tempo no seio de uma dada sociedade, e a arquitectura é sem dúvida um elemento constituinte da cultura e da definição da “identidade cultural” de uma cidade. É um privilégio que os cidadãos possam pronunciar-se quanto a alterações estruturantes na morfologia das suas cidades. É a democracia na gestão do espaço público a funcionar. Intrigam-me os grandes defensores da Democracia, que contra ela se erguem sempre que esta não produz os resultados por eles desejados. Mas foi assim que escolhemos viver: parece que é o pior dos sistemas, à excepção de todos os outros, certo?
A Europa oferece valores como a igualdade entre homens e mulheres de todas as raças e credos, os seus serviços públicos de educação, saúde e segurança. A Europa não tem de oferecer a sua história, a sua cultura ou a sua matriz identitária. Quando um membro do comité das Nações Unidas para a questão dos direitos humanos afirma que a proibição suiça “É o equivalente a banir os campanários das igrejas” quase que concordo com ele, com a pequena diferença que o que ele sugere é eliminar mais de mil anos de história e da matriz sobre a qual, gostemos ou não, se construiu a Europa.
Lê-se também no Público:

Consciente das críticas e das consequências, o Governo suíço, que se opôs à proibição, esforça-se por defender que “este voto não modifica em nada os objectivos de política externa da Suíça”, como afirmou a chefe da diplomacia, Micheline Calmy-Rey. “A Suíça mantém relações estreitas com todos os países muçulmanos”, sublinhou numa reunião da OSCE.

É das mais perigosas confusões que assolam o Ocidente, esta incompreensão de que a expressão “dialogar como iguais” não quer dizer que tenham de ser literalmente idênticas as partes em diálogo, mas simplesmente que estas se respeitam mutuamente. Não temos de fundir a nossa identidade com o Islão para dialogar com o Islão, como parecemos ter esquecido; devemos sim respeitar a cultura, a história e as tradições dos outros e exigir que estes respeitam igualmente a nossa. O diálogo só é impossível quando não há respeito mútuo pela opinião alheia, não quando há divergência nas opiniões expressas.
Enfim, o que também me preocupa é que num futuro não muito distante as mulheres europeias sejam proibidas de ostentar poderosos decotes ou saias e calções curtinhos, por tal constituir uma ofensa às práticas muçulmanas. E então, a minha vida perderia um dos seus enormes atractivos. Fico então mais feliz por viver actualmente na Alemanha, dado que, escreve ainda o Público:

Segundo o tablóide “Bild”, que reclama saber medir como nenhum outro o pulso aos alemães, estes votariam provavelmente da mesma forma que os suíços se tivessem a oportunidade. “O minarete não é só o símbolo de uma religião, mas de uma cultura completamente diferente. Grande parte do mundo muçulmano não partilha dos nossos valores europeus básicos: o legado da Iluminismo, a igualdade do homem e da mulher, a separação da Igreja e do Estado, um sistema de justiça independente da Bíblia ou do Corão”, escreve o diário.

Wednesday, 2 December 2009

Pois é...

Diferenças

- Na Alemanha, no fim das aulas, os alunos batem na mesa com os nós dos dedos, como sinal de respeito e agradecimento ao professor. Em Itália, a 10 minutos do fim da aula começam a gritar "BASTA" no fim das frases do professor.
- Na Alemanha, vi um táxi dar passagem a outro carro. Mas pode ter sido uma alucinação, concedo.
- Na Alemanha, as cantinas são piores que em Portugal ou em Itália. São mais caras, mas não dão muita comida, e esta não é muito boa.
- Na Alemanha, não se tem frio dentro de casa, mesmo que lá fora esteja um gelo de fazer tiritar um boneco de neve.
- Na Alemanha, os amigos cumprimentam-se e despedem-se com um abraço, pouco apertado, um pouco estranho.

Mittwoch, oder Wednesday

Correr de manhã... tanto frio, que quase me caíam as mãos geladas!
À tarde, por sugestão de uma amiga alemã, fomos visitar o Hohenschönhausen Memorial, uma antiga prisão da STASI (a polícia política da Alemanha de Leste) para presos políticos e que foi preservada e transformada em museu. Já tinha visto este complexo com muros altos e torres de vigia numa das minhas corridas pelo bairro, mas não sabia exactamente o que era. Fui lá com a Maren hoje.
A guia, ex-reclusa (em Dresden, em Berlim esteve só de passagem) tinha um inglês que deixava bastante a desejar e que prejudicou um bocado a apresentação. Parcialmente, compensou-o com a sua teatralidade e simpatia, mas apenas parcialmente. Ficou sob investigação após ter apanhado uma boleia rumo à Hungria e conversado mais do que devia com o seu simpático e providencial enviado do destino. A vida tornou-se difícil, deixou de poder sair do país em viagem, não conseguia mudar de emprego, não sabia porquê mas a vida tornava-se para ela impossível. Só soube disto tudo em 1990, quando os alemães de leste puderam consultar os seus ficheiros nos arquivos da Stasi.
Assim, tentou a fuga para a Checoslováquia. Mas foi apanhada. "Condenada" pela STASI a dois anos e meio de prisão, cumpriu um ano e depois foi "comprada" pela Alemanha Ocidental, por intermédio de um programa instituído na altura que o permitia.
Mais informações aqui.