Friday, 12 September 2008

Primos I: O desespero e a angústia existencial


O Grito, Edvard Munch (1893)



Chopin - Polonaise Op.40 No.2 em dó menor (1838).
Ao piano: Rubenstein


O Estrangeiro, Alvert Camus (1942)

Wednesday, 10 September 2008

Tempos Modernos



Há cerca de dois anos, fui passar um fim-de-semana numa quinta de turismo de habitação. Uma casa senhorial antiga, muito muito bonita. O pequeno almoço era delicioso, servido por uma senhora velhinha, de andar vagaroso e sereno como a manhã que se abria. A dona da casa, uma Senhora, confidenciou que o seu filho (que era quem efectivamente "geria" as coisas) a queria dispensar, pois ela era já muito lenta. Mas esta Senhora nem queria pensar em tal ideia. A empregada velhinha trabalhava naquela casa há muitos muitos anos, era já parte da casa, e portanto jamais seria dispensável. Jamais seria descartável. A Senhora, nobreza em pessoa.
Não acho que o filho fosse menos "humano" ou bem formado que a sua mãe. Seriam até, nesse aspecto, farinha do mesmo saco. Talvez seja mais a diferença geracional em acção.
Somos de facto produto de uma sociedade em que tudo se tornou "descartável". Começou pelas fraldas e seringas (o que é bom), mas claramente desembocou nos afectos e nas pessoas. Pessoas como meios, e não como "fins em si mesmos" como Kant nos propôs.
É uma sensação de impotência tremenda, quando presenciamos alguém tratado como mercadoria. Descartável. Porque é daquelas situações em que toda a nossa simpatia, mesmo toda a nossa simpatia, não vale rigorosamente nada.

Monday, 1 September 2008

Complexo de Peter Pan

Devo ao João Távora esta maravilhosa expressão.
Complexo de Peter Pan não é sinónimo de pateta-alegre que não sabe crescer, amadurecer e viver a idade que tem.
O complexo de Peter Pan revela-se em todos aqueles para quem conceitos como magia, deslumbramento, descoberta, novidade e sonho não são exclusivas do universo infantil, mas ensinamentos de criança que mantêm o nosso mundo tingido de cor e que devemos preservar dentro de nós.
Eu costumo personificar esta atitude no Tom Sawyer (o meu herói), que quero que habite dentro de mim. Mas complexo de Peter Pan também está muito bem!



Tu andas sempre descalço, Tom Sawyer,
Junto ao rio a passear, Tom Sawyer,
Mil amigos deixarás, aqui e além..
Descobrir o mundo, viver aventuras!

Saturday, 30 August 2008

Out of Africa

Sydney Pollack (1985)
É dificil explicar este fenómeno que me prende em frente à televisão sempre que apanho este filme. Mas simplesmente adoro este filme.
Talvez parte do segredo esteja na maneira como a mais profunda das amizades se manifesta tão completamente num aperto de mão, a forma como o mais profundo sofrimento se encerra numa dança ou no gesto de apertar a terra que podem ver em baixo. É um filme arquitectado na importância de pequenos gestos, da entoação (e não só no maravilhoso sotaque de Maryl Streep, num papel inacreditável), e, obviamente, do Quinteto para Clarinete de Mozart. Acho que aprendi muito sobre a amizade, quando ouvi o Berkeley Cole dizer "I thought I didn't knew you well enough", ou mais ainda quando Karen confidencia ao Denys "I had sifilis", numa cena absolutamente incrível.
Fica a cena do enterro. "He was not mine".

Tuesday, 15 July 2008

Simbolismos

Em geral, tendo a apreciar gestos simbólicos. Mesmo que pequenos ou desarticulados; um pequeno e cuidado gesto encerra geralmente algo de belo.

Mas a pequena metáfora que ele consubstancia tem, indubitavelmente, de ser verdadeira! Caso contrário, o simbolismo torna-se simplesmente patético. Como uma andedota que tem de ser explicada. O efeito morre, o seu autor definha.


Tal vem a propósito da recente cimeira do G8, onde os 8 (+1) chefes de estado presentes resolveram, "simbolicamente", plantar cada um uma árvore. O simbolismo marca uma viragem de atitude, um compromisso sério com o ambiente? Não, celebra a "ambiciosa" meta de reduzir as emissões de gases que provocam o efeito de estufa em 50% até 2050. Bestial! Assim anunciado, sem sombra de objectivos intercalares, contra os quais possamos avaliar o andamento do processo, ou o grau de comprometimento com as suas promessas. Claro, baseadas na credibilidade de quem nem retificou o Protocolo de Quioto (EUA), ou de quem se mostra longe de cumprir as metas intercalares que, este sim, contemplava (UE), pelo menos relativamente ao designado primeiro período de compromisso.

Este compromisso surge, assim, como uma mão cheia de nada. Fica a cândida imagem de G.W. Bush olhando para Merkel, talvez tentando perceber como se usa uma pá.

Sunday, 16 March 2008

O Juizo da História

A História é, em geral, uma justa e ponderada juiza. É uma questão de tempo. As obras conhecidas de toda a gente, aquelas cujos primeiros 5 segundos nos proporcionam um imediato reconhecimento, são o resultado de um apurado processo de decantação histórica. Tamanha capacidade de sobrevivência deverá ser sintomática de alguma qualidade.

O lado perverso deste processo é claro: essas obras sobreviventes tornam-se de tal modo ícones reconhecidos e cristalizados, de tal forma repetidos, que é difícil manter por elas o amor primordial... Não é fácil ouvir a "Sonata ao Luar" de Beethoven ou o adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler ou a "Sonata Fácil" de Mozart sem as ligar à banda sonora deste ou daquele filme ou programa, já para não falar de pirosas compilações denominadas "momentos românticos", com o barulho do mar como música de fundo. Assim, não é difícil que obras primas nos provoquem, por vezes, violentos sentimentos de náusea, verdadeira indisposição física, vontade de partir o emissor sonoro de semelhante "cliché".
A Nona Sinfonia de Beethoven, em especial o seu "Hino à Alegria", feito hino da União Europeia, é sem dúvida um destes casos.

Proponho então o seguinte exercício: comece a ouvir o seguinte vídeo ao minuto 3:20... E ao minuto 4:58 sustenha a respiração. Deixe-se embalar na maior cavalgada que conheço na história da música... não em extensão, mas na tensão que se cria, na busca àvida que revela, sempre mais funda sempre mais forte... também a música não respira, é um cavalo com sem freio nos dentes, num sprint vertiginoso... Quando chegar ao minuto 6:20, pode respirar (vai sentir na música, não precisa de contar), e aproveitar para retemperar as forças.
A qualidade do vídeo é muito má, e não soa com um quinto da intensidade que deveria ter... é um ponto de partida, espero, para posterior busca... mas espero que, passados 15 segundos a retemperar os sentidos, o Hino à Alegria soe tão rejubilante, poderoso e único como sempre deve soar!



E o texto de Schiller: http://en.wikisource.org/wiki/Ode_to_Joy

Ah! e devo isto a alguém: MAKUKULA!